terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Relatório 12 – Reunião do Grupo Interconexões-UEPG na Comunidade Caiçara de Guaraguaçu (Pontal do Paraná – PR)

A equipe do Grupo de Pesquisa Interconexões-UEPG se reuniu na última terça-feira, dia 27 de novembro, na Comunidade Caiçara de Guaraguaçu, em Pontal do Paraná, litoral paranaense,  para discutir sobre as etapas dos Projetos de Pesquisa e Extensão coordenados pelo Prof. Dr. Nicolas Floriani (Programa de Pós-Graduação em Geografia - UEPG). As três equipes de pesquisa que atuam em diferentes contextos em comunidades tradicionais  paranaenses puderam compartilhar experiências e expor as atividades já desenvolvidas e o cronograma para o próximo ano.


As atividades de campo realizadas na comunidade caiçara ao longo da primeira fase do projeto, sob coordenação do Prof. Dr. Márcio Haliski (IFPR), que desenvolveu seu estágio de Pós-Doutoramento sob supervisão do Prof. Nicolas e tendo como recorte espacial a respectiva comunidade inseriram-se no uso de metodologias participativas que resultou em ações concretas, como a reativação da associação de moradores e a construção do selo “Guaraguaçu Caiçara”.

O selo simboliza o resgate da cultura caiçara, a partir da compreensão da comunidade sobre questões de autorreconhecimento, e tem como objetivo caracterizar os produtos e serviços realizados naquela região e organizados a partir de compromissos assumidos, buscando uma nova relação de confiança entre produtores e consumidores e valorizando a cultura local.
O café da dona Conceição, local que sediou o encontro, é um exemplo prático do uso do selo “Guaraguaçu Caiçara”, lá são ofertados serviços de alimentação com a confiança de um produto de qualidade e resgate dos saberes e receitas tradicionais.

Para 2019 a equipe do Prof. Haliski pretende focar suas atividades no turismo de base comunitária com rotas de passeios e camping, assim como alimentação tradicional através do projeto Sabores e Saberes, desenvolvendo receitas típicas.
Na região de Ponta Grossa, as atividades de campo coordenadas pela Profª. Drª. Tanize Tomasi (Pós-doutoranda do PPG-UEPG) e Prof. Doutorando Renato Pereira realizadas ao longo do ano de 2018 proporcionaram uma articulação entre Três comunidades: Sete Saltos de Baixo (faxinal), Palmital dos Pretos (quilombo) e Sete Saltos de Cima (Comunidade rural). Devido à proximidade de seus territórios e relações pessoais entre os sujeitos das comunidades surgiu a proposta de trabalhar em rede.
Portanto a Rede SAPE (Saberes agroecológicos de permanência), como foi batizada, está em processo de estruturação e já conta com a participação de 13 famílias.
Para formalização da rede a comunidade considerou mais interessante se regulamentar via Organização de Controle Social (OCS) que permite a venda direta dos excedentes de produção, sendo que a transição agroecológica, neste caso, pode durar até 4 anos.
Para 2019, o planejamento é dar início a construção das OCS e a transição agroecológica, com atividades de melhoramento dos agroecossistemas, infraestrutura, orientação e capacitação dos agricultores da Rede. Além disso, está previsto a instalação de uma estufa de mudas, um banco de sementes, um minhocário e o plantio de mudas nativas (estas serão cedidas pelo Iap – pela parceria e colaboração da servidora Margit Hauer nas atividades desenvolvidas pelo GP Interconexões) através dos mutirões.
A terceira equipe atua no Projeto de Extensão na estruturação do Selo Faxinalense no município de Rebouças:  Faxinal Saltos e Marmeleiro de Baixo. Esse projeto que está em fase inicial aproveitou o encontro para levantar questões sobre identidade e metodologias participativas que fomentem a organização comunitária e a busca por reconhecimento enquanto comunidade tradicional.
O encontro foi encerrado com debates e reflexões sobre os trabalhos já realizados e as perspectivas para as próximas etapas que serão desenvolvidas nas comunidades pelas três equipes do Grupo de Pesquisa Interconexões-UEPG.
Por Fernanda Paes Arruda – Técnica/Engenheira de Alimentos do Projeto de Extensão Selo Faxinalense

Relatório 11 – Trabalho de campo no Faxinal Sete Saltos de Baixo (Ponta Grossa – PR) e Comunidade Quilombola Palmital dos Pretos (Campo Largo – PR)



Na tarde do dia 27, manhã e tarde do dia 28 de outubro realizou-se a prática de campo nas comunidades Faxinal Sete Saltos de Baixo (Ponta Grossa – PR) e Quilombo Palmital dos Pretos (Campo Largo – PR). As primeiras atividades efetivadas pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Interconexões – UEPG, Tanize Tomasi (Pós-doutoranda PPGG-UEPG) e Renato Pereira (Doutorando PPGG-UEPG), deram seguimento ao cronograma executado na última semana.

O quilombola Sr. Alceu, mateiro conhecedor das trilhas e caminhos locais  nos possibilitou uma turnê guiada pelos limites da comunidade. Na tarde compartilhada ao adentrar as áreas de mata fomos agraciados ainda pelos seus etnoconhecimentos botânicos. A fala endossada pelas vivências e usos das plantas ressaltaram o aproveitamento dos recursos ambientais locais. Já era noite quando deixamos  de seguir os passos apressados  de Sr. Alceu, de quem sabe onde e como deve pisar dentro da mata fechada.  Referenciamos os limites dos locais percorridos para a construção do perímetro comunitário.
No dia posterior nos deslocamos até a comunidade Faxinal Sete Saltos de Baixo para acompanhar uma momento de festividade. Ao chegar na casa de Antônio e Cila deparou-se com os muitos carros estacionados no gramado que circunda a residência. Espalhados por toda a propriedade, os convidados agrupavam-se em conversas, desempenhando as atividades ou participando dos rituais religiosos da tradicional festa de São Sebastião.
Ao final da tarde visitamos na comunidade quilombola a casa do Sr. Domingos, momento de ouvir as histórias e causos de outrora. Sentar ao lado do fogão a lenha sobre o chão batido da casa de madeira e ao som do chiar da chaleira acompanhar o ir e vir nas temporalidades da voz de um dos mais antigos moradores.
O Grupo de Pesquisa Interconexões-UEPG agradece os momentos de interação vivenciados junto as comunidades.
Por Tanize Tomasi - Pós-doutorando do PPG - UEPG

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Relatório 10 – Trabalho de Campo nas Comunidades de Sete Saltos de Cima (Ponta Grossa-PR) e Quilombo Palmital dos Pretos (Campo Largo-PR)

Nos dias 11, 12, 13 e 14 de outubro de 2018, dois integrantes do Grupo de Pesquisa Interconexões-UEPG, Prof.ª Dr.ª (Pós-Doutoranda PPGG) Tanize Tomasi e Msc. (Doutorando PPGG) Renato Pereira estiveram em imersão a campo para realizar a visita as unidades produtivas dos agricultores integrantes da Rede SAPE, que pertencem as comunidades rurais vizinhas de Sete Saltos de Cima e Quilombo Palmital dos Pretos, respectivamente nos municípios paranaenses de Ponta Grossa e Campo Largo. 
O trabalho de campo teve como principal finalidade realizar o cadastramento das mudas de árvores nativas para serem solicitadas ao Instituto Ambiental do Paraná para o melhoramento e implementação dos agroecossistemas dos agricultores que integram a Rede SAPE. Ao visitar os agroecossistemas efetuou-se a construção de croquis das áreas das unidades produtivas, para posterior modelização, identificação produtiva e vocativa de cada subunidade. Estes croquis integrarão o plano de manejo, documento necessário para o controle interno da Organização de Controle Social para avaliação da conformidade orgânica.
Alguns pontos importantes e trilhas foram marcados com a orientação do líder quilombola Arildo Portela de Moraes,  visando o levantamento das informações para a confecção dos mapas participativos de recursos sociais e ambientais. Para confirmar a importância dos pontos conversou-se com os moradores mais antigos e em uma entrevista semiestruturada pode-se acompanhar o entrelaçamento do passado e presente na fala de Sr. Domingos e Dona Leonilda.
Observou-se e registrou-se o início das obras das 14 casas que contemplaram famílias quilombolas pelo programa da COHAPAR – Companhia de Habitação do Paraná. E o anúncio pelo líder quilombola e distribuição de donativos, roupas, na sede da cozinha comunitária, que foram recebidos de escolas de Campo Largo-PR.
Início das obras da COHAPAR – Sr. Domingos e Dona Leonilda/Comunidade Quilombola Palmital dos Pretos Fonte: Tomasi, 2018.
No Sítio São Francisco de Assis, propriedade de Antônio Ostrufk, em Sete Salto de Cima, pernoitou-se durante o período de imersão e compartilhou-se de conversas durantes as refeições, no início ou finais dos dias. Tivemos o privilégio de acompanhar a rotina cotidiana em uma unidade produtiva agroecológica. Verificar o local de implantação da Estufa de hortaliças e árvores nativas. Identificar as possibilidades de novas famílias agricultoras para a rede. Saborear a agrobiodiversidade da produção orgânica. Apresentar o logotipo e logomarca da Organização de Controle Social que estamos ajudando a estruturar. A mesma foi apresentada para o líder quilombola e para o integrante João Carlos, que vem sendo um dos moradores atuantes do movimento de consolidação da rede.
O Grupo de Pesquisa Interconexões-UEPG agradece o suporte e o esforço dos moradores das Comunidades para a realização das atividades de pesquisa. Gratidão!

Relatório 09 – 10º Encontro Celebração da vida da Agricultura Familiar

Soleando a colheita aos 28 dias de julho de 2018 em terras agroecológicas da receptível comunidade rural de Sete Saltos de Cima em Ponta Grossa-PR, o Grupo de Pesquisas Interconexões-UEPG esteve em campo a convite dos anfitriões Asaeco (Associação Solidária da Agricultura Ecológica de Ponta Grossa e Região), Ceta (Centro de Estudos e Treinamento em Agroecologia) e Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ponta Grossa, para participar e colaborar na coordenação do 10º Encontro “Celebração da vida da Agricultura Familiar”. 
Agricultura Familiar” Ao centro Antônio Ostrufk, fundador do Ceta e Asaeco, em atividade prático-agroecológica em sua propriedade Fonte: Tomasi, 2018.


Ao observar os passos de quem já caminhou para lá e para cá e fez da sua última paragem muitos caminhos para outros chegarem, em poucos minutos de conversa na roça a emoção de ver vidas ganhando chão fértil. A produtividade alicerçada à diversidade colorida, são tantas tonalidades entrelaçadas, seja aquelas comumente vistas e servidas as nossas mesas, como àquelas doutrora pisoteadas ou exterminadas e que agora se fazem alimento (Pancs). Até onde a vista alcança olhar, fomos olhados pelo novo, a possibilidade de plantar o respeito aos ciclos naturais. A potencialidade de se alimentar à produção dos elementos disponíveis na propriedade familiar e o entrelaçamento à vizinhança.

Foto 02 – 10° Encontro “Celebração da vida da Agricultura Familiar” Convidados manipulando a palhada em terra de pousio/recuperação da fertilidade Fonte: Tomasi, 2018.



A diversidade está nas formas que os produtores vivem seus lugares, Antônio Ostrufk, sua esposa Cida (Presidente da Asaeco), seu filho Luciano, nora Ana Paula e neta Ana Júlia, vivenciam o cotidiano de ser/estar agroecológico. Transgredindo o modo convencional de produzir para algo que justifica e enaltece a riqueza ambiental local.



As mãos de um produtor e incentivador dos estudos agroecológicos nos assegura a possibilidade de desenvolver técnicas e saberes pertencentes àqueles que fazem da terra sua morada, campo sagrado para trilhar histórias de vida. Antônio mais do que ninguém celebra a vida do trabalhador do campo e nos ensina a sermos atentos ao céus e terras entre os quais fazemos-nos vivos. O diálogo apurado de quem faz sua própria observação-participante, identificando as respostas que a própria natureza fornece a determinados cultivos. 



Solo com microorganismos ativos Fonte: Tomasi, 2018.

O Projeto Alimentando à Vida promove a inclusão de produtores que já desenvolvem práticas agrícolas familiares que sustenta a agrobiodiversidade local, e, mais do que isso possibilita a comercialização destes produtos. O alcance regional dá voz aos sujeitos invisibilizados que têm condições de participar do mercado local-regional com alimentos sustentáveis e saudáveis. A resistência por uma agricultura familiar sustentável pela agroecologia foi a grande temática deste 10º Encontro. 



Mucuna branca Fonte: Tomasi, 201



O Grupo de Pesquisa interconexões – UEPG agradece a parceria, e ressalta a importância dos esforços de todos os produtores, participantes e adeptos da agroecologia em unidades familiares.

Relatório de Campo 08 – 16ª Feira regional de sementes crioulas e da agrobiodiversidade e 2ª Festa dos guardiões das sementes – São João do Triunfo-PR

O Grupo Interconexões-UEPG e agricultores familiares, sujeitos do recorte espacial dos projetos de pesquisa e extensão, participaram nos dias 31 de agosto e 1 de setembro de 2018 da 16ª Feira regional de sementes crioulas e da agrobiodiversidade/2ª Festa dos guardiões das sementes, no Parque Municipal de Eventos Francisco Neves Filho em São João do Triunfo-PR. Um estande foi ocupado para a comercialização de produtos das comunidades rurais Sete Saltos de Cima,  Sete Saltos de Baixo (Faxinal) e Palmital dos Pretos (Quilombo).

Estande dos produtos dos agricultores
familiares de Itaiacoca (Ponta Grossa) e Três Córregos (Campo Largo) Fonte: Tomasi, 2018.
 


A participação dos agricultores projetou o panorama da produção existente em cada agroecossistema, outrora levantado nas pesquisas de campo. Uma agrobiodiversidade ressaltada por produtos in natura, processados e artesanais. Na feira destacou-se: mel, limão, ervas medicinais, erva-mate, conservas, pães, bolachas, sucos, geleias, doce de leite, melado, rapadura, artesanatos – tapetes de retalhos, crochê, bolsas de pano, cestarias de taquara,  sabonetes e monjolo de madeira.


Agrobiodiversidade das unidades produtivas em Itaiacoca (Ponta Grossa) e Três Córregos (Campo Largo) Fonte: Tomasi, 2018.
Os agricultores puderam ter contato com as práticas de comercialização e divulgação da sua produção, a troca de experiências e efetivação de novos contatos com outros agricultores. Também puderam realizar a troca e compra de sementes crioulas, e, a participação em oficinas específicas.
O Grupo de Pesquisa Interconexões-UEPG agradece a participação dos agricultores neste evento.

Por Tanize Tomasi – Pós-doutoranda do PPGG UEPG

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

RELATÓRIO 7 - II° ENCONTRO ACADÊMICO-COMUNITÁRIO DA UNITINERANTE: "SABERES GEOCOLÓGICOS TRADICIONAIS E DIVERSIDADE SOCIOTERRITORIAL"


O II Encontro Acadêmico-comunitário da Unitinerante[.1] [1] e XI Encontro Temático da Rede CASLA-CEPIAL[2] que ocorreu do dia 17 a 26 de agosto de 2018, teve como eixo-disciplinar[3] proposto pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia-UEPG os "Saberes Geoecológicos Tradicionais e Diversidade Socioterritorial". Em nove dias discentes (Graduação e Pós-Graduação), docentes e comunitários percorreram três municípios paranaenses, dois deles localizados no centro-leste na região dos Campos Gerais, sendo Ponta Grossa e Campo Largo, e, no litoral, Pontal do Paraná (Figura 01). Estes contemplaram o itinerário do evento por conter em suas áreas rurais comunidades tradicionais, respectivamente, Faxinal (Sete Saltos de Baixo), Quilombo (Palmital dos Pretos) e Caiçara (Guaraguaçu).


Figura 1 – Recorte espacial do itinerário do evento nas comunidades tradicionais paranaenses. Org.: Pereira, 2018.
Tais grupos étnicos são recorte espacial do projeto de pesquisa “Territorialidades Tradicionais às Territorializações da Agroecologia: Saberes, Práticas e Políticas de Natureza em Comunidades Rurais Tradicionais do Paraná (Chamada Universal MCTI/CNPq nº 01/2016) e do projeto de extensão “Selo Socioambiental Produtos da Agrofloresta Faxinalense: Capacitação Sociotécnica e Empoderamento Jurídico para a Inclusão Social e Geração de Renda de Populações Tradicionais do Paraná” (SETI-PR/2018). 

Tanto o projeto de pesquisa, quanto o de extensão são coordenados pelo Prof. Dr. Nicolas Floriani do Programa de Pós-Graduação em Geografia-UEPG, efetivado pelo Grupo de pesquisa – “Interconexões/UEPG”, tendo ainda como integrantes: Tanize Tomasi Alves (Pós-doutoranda), Antônio Márcio Haliski (Pós-doutorando), Cleusi Teresinha Bobato Stadler (Doutoranda), Renato Pereira (Doutorando), Vanderlei Marinheski (Doutorando) e Brenda Olinek (Graduanda em Biologia). E dentro do projeto de extensão a técnica Ronir Fátima Rodrigues. 
De forma alternativa, e, até desafiadora aos padrões acadêmicos, pela segunda vez ofertou-se a disciplina-evento nas comunidades, com a prerrogativa de nesta edição ter sido acrescido as três diferentes realidades. Uma parceria firmada pela UEPG, através do docente do departamento de Geociências, Prof. Dr. Nicolas, com a Casla-Rede-Cepial. A inserção à campo possibilitou a integração dos discentes e docentes ao ambiente cotidiano dos sujeitos das pesquisas e atividades extensionistas. Além de facilitar a participação dos sujeitos locais, e, mais do que isso ter o protagonismo dos mesmos durante o evento em que foram temática. Portanto, a programação do evento foi estruturada de forma que contemplasse as discussões acadêmico-teóricas e problemáticas/demandas comunitárias. Assim como a inclusão de atividades e práticas culturais contemplativas e valorativas dos saberes tradicionais.
Com a metodologia da observação-participante (GOFFMAN, 2012)[4], em que os pesquisadores adequam-se à captura das informações conforme o seu olhar, interagindo através do contato face a face no momento da realização das atividades, tem-se o aprofundamento e a aproximação dos sujeitos pesquisadores e estudantes com os sujeitos de suas pesquisas e estudos. Uma interação potencial ao diálogo mais eficaz e direcionado às problemáticas locais, uma vez que os sujeitos que de fato vivenciam as realidades podem expor outras perspectivas e argumentos sobre as mesmas.
Também adota-se conforme Pereira (2018) o procedimento metodológico da pesquisa-ação. Esta de acordo com Thiollent (1985, p. 14)[5] é:
[...] Um tipo de pesquisa social que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação da realidade a ser investigada estão envolvidos de modo cooperativo e participativo.
Coloca-se esta metodologia, pois as práticas e atividades dos projetos de pesquisa e extensão que perpassaram o evento, visam mais do que o levantamento de informações, mas a reestruturação e melhoramento dos sistemas produtivos; valorização da produção; organização e ampliação da comercialização dos excedentes. Durante o evento algumas práticas foram direcionadas para estes fins.
Para Pereira (2018) tanto a justificativa do projeto, quanto à abordagem agroecológica a partir dos sujeitos das comunidades tradicionais no evento, encontra ressonância em Altieri (1998)[6], quando ressalta que o enfoque da agroecologia deve ser ao agricultor que possui menor acesso aos insumos tecnológicos e poucas relações com o mercado, como uma estratégia para o desenvolvimento rural sustentável.
Este relatório constituiu-se por trechos dos relatórios de campo dos alunos do Programa de Pós-Graduação em Geografia-UEPG[7], Fábio Martins, Cleusi Bobato Stadler e Renato Pereira, que experenciaram a prática de campo, nestes ambientes distintos.
A seguir Stadler (2018) nos expõem que a abertura do evento no Faxinal de Sete Saltos de Baixo, no dia 18 de agosto de 2018, com a ressalva de um percentual baixo de participantes acadêmico-comunitário inferiu na alternância da metodologia das “oficinas participativas” – moradores das comunidades, discentes e docentes –, com a inclusão da fala expositiva-ilustrativa.
Na exposição teórico-prática teve-se no Faxinal Sete Saltos de Baixo a abordagem de três temáticas: “Etnopedologia e Manejo da Fertilidade dos Solos (Vanderlei Marinheski – Doutorado/UEPG)”, “Agrobiodiversidade – “Sementes Crioulas” e Práticas Culturais dos Faxinalenses e Quilombolas (Cleusi Bobato Stadler-Doutorado/UEPG)” – destaca-se a exposição do banco de sementes[8] -, e Agrobiodiversidade e Sistema Agroflorestal (Margit Hauer-IAP)” (Fotos 01 e 02). Também fez-se uma exposição de fotos dos sujeitos da pesquisa, registros estes realizados por uma das integrantes do Grupo Interconexões-UEPG durante os trabalhos de imersão à campo (TOMASI, 2018). E uma apresentação sobre o projeto do selo faxinalense, com destaque para alguns resultados e homenagem póstuma a um líder faxinalense de uma comunidade vizinha (GONÇALVES, 2018).




Fotos 01 e 02 – Oficinas Teórico-práticas na Comunidade Faxinalense Sete Saltos de Baixo-Ponta Grossa/PR. Fonte: Tomasi, 2018.


Todavia, segundo Stadler (2018) destaca-se durante as Oficinas as práticas culturais. Em uma delas a faxinalense Srª Jesuvina Chagas Ferreira, de 69 anos, moradora do local há mais de 25 anos, demonstra a tradição de socar a erva-mate no pilão, uma atividade que realiza todos os anos em sua propriedade (Foto 03). Ela corta a erva-mate, seca no forno de barro e soca no pilão, de modo artesanal e tradicional. E a prática da “Paçoca de carne” no pilão, apresentada pela família Chagas, onde se coloca a carne de porco salgada junto a farinha de milho e vai socando até formar a paçoca (Foto 04).


Fotos 03 e 04 – Práticas tradicionais executadas por faxinalenses na Comunidade Sete Saltos de Baixo – Ponta Grossa/PR. Fonte: Tomasi, 2018.

Stadler (2018) evidencia a exposição de produtos faxinalenses para comercialização com os participantes do evento. Destaca-se entre a produção: a erva-mate, o mel e artesanatos de taquara e fibras. Apresentações artísticas musicais com sanfona, violão e sino foram realizadas pelos faxinalenses e quilombolas.

De acordo com Pereira (2018) no segundo dia de evento, 19 de agosto de 2018, vivenciou-se a atividade de visita à propriedade familiar agrícola dos Marques – localizada na comunidade rural de Sete Saltos de Cima (Ponta Grossa-PR) –, o almoço comunitário e a etnocaminhada na Comunidade Quilombola Palmital dos Pretos.

Na primeira atividade, observa-se os resultados dos primeiros anos de transposição de uma agricultura convencional para os moldes teórico-práticos da agroecologia. Teve-se in loco a fala e demonstração de alguns termos e técnicas de manejo do sistema produtivo agroecológico pelo estudante de Tecnologia em Agroecologia do IFPR, Leandro Miguel Schepiura. Nesta ocasião além da caminhada pelo agroecossistema, identifica-se a agrobiodiversidade existente, diante do histórico da mesma e o pouco tempo de inserção às novas práticas agrícolas (Fotos 05). Também pode-se acompanhar a poda de bananeira, observar a troca de sementes crioulas entre os sujeitos comunitários e a coleta de exemplares por integrante do Grupo Interconexões-UEPG para o banco de sementes do projeto.

Fotos 05 – Estudante do curso de Tecnologia em Agroecologia e Propriedade com início de produção agroecológica. Fonte: Tomasi, 2018.
Já na Comunidade Quilombola Palmital dos Pretos, a partir do meio dia, conforme Pereira (2018) realizou-se o almoço comunitário, ofertado pelos quilombolas com produtos locais, como o arroz, o feijão e o frango caipira. Após o término deste, efetivou-se a etnocaminhada, caminhada guiada pelo quilombola Sr. Alceu Carneiro, cujas práticas e atividades diárias demandam muito conhecimento da mata, demonstrada nesta ocasião.

Escolheu-se a mata próxima a estrada principal, onde todo o grupo pode adentrar e ter contato com os saberes vernaculares deste sujeito quilombola. Ele identificou espécies vegetais, seu uso doméstico e medicinal, como por exemplo o Cipó-mil-homens. Nesta ocasião observou-se ainda os remanescentes dos antigos caminhos presentes na mata.

Na comunidade quilombola a programação possibilitou a visita à propriedade do líder, Arildo Moraes de Portela, cuja implantação iniciou-se neste ano, alguns meses antes das primeiras atividades do Grupo de Pesquisa, desta forma acompanha-se a construção das benfeitorias e do sistema produtivo. Este mescla técnicas vinculadas aos saberes tradicionais e agroecológicos, visto que, adquiriu conhecimentos teóricos cursando um período do curso de Tecnologia em Agroecologia pelo IFPR. Na Comunidade adquiriu-se sementes crioulas e de adubo verde.

Do dia 21 a 23 de agosto de 2018, o evento seguiu com programação em Curitiba, na Casla, destacando então, a proposta da Unitinerante, e assim fez-se a presença dos sujeitos destas comunidades neste ambiente, além de lideranças de outros grupos étnicos. E também a participação de Pró-reitores de Universidades públicas, Secretário de Ciência e Tecnologia e Fundação Araucária do Paraná, Ministério Público do Paraná, Defensoria Pública Federal, Núcleo especializado da Infância e Juventude, Instituto Ambiental do Paraná, organizações e movimentos sociais.

Durante estes três dias segundo Stadler (2018) debateu-se os seguintes temas: Jornada Direitos Humanos e Migrações; Jornada Direitos Humanos; Violência e Situação Prisional: desafios para o Brasil e Argentina; Organizações Comunitárias: experiências de diálogo com poder público e academia; Saberes Geoecológicos Locais e Diversidade Socioterritorial: experiências acadêmicas nacionais. E ainda, nesta ocasião segundo Martins (2018) firmou-se parcerias em apoio ao projeto da Unitinerante, com diversas instituições e autoridades representativas.

Na Casla também pode-se realizar a “1ª Feira de Sabores e Sementes”, as sementes e produtos coletados nas comunidades, deram-se em períodos anteriores, durante as atividades de pesquisa do Grupo Interconexões-UEPG. Efetivou-se a comercialização da produção das três comunidades tradicionais ao qual o evento foi ambientado e de agricultores familiares da comunidade Sete Saltos de Cima, vizinha ao quilombo e faxinal que também são foco do projeto de pesquisa e extensão (Foto 06). 

Além deles comercializarem seus produtos diretamente ao consumidor, nesta ocasião os sujeitos comunitários oportunizaram a exposição de saberes-fazeres (Foto 07) através das oficinais de práticas culturais com a confecção da canjica com cinza no pilão (PEREIRA, 2018) e a confecção de cuia em porongo e a bomba de bambu, posteriormente, com o material pronto os participantes constituíram uma roda de chimarrão (MARTINS, 2018). 

Foto 06 - Banner com os representantes das comunidades na 1ª Feira de Sabores e Sementes. Fonte: Tomasi, 2018.
Dentro da metodologia das oficinas culturais Pereira (2018) enfatiza a importância deste saber-fazer tradicional fundamentada no argumento de Clarindo e Floriani (2014)[9], em que as comunidades constituem-se de territorialidades a partir da sua relação de ocupação coletiva e de subsistência com a terra, dos laços de parentesco e de compadresco, pela sua ancestralidade, pelas suas  tradições simbólico-culturais e pelos rituais e saberes vernaculares, como a reza cantada, as moradias de barro e cobertura de capim (casas de sapê), o uso do pilão, o conhecimento da flora e da fauna e a agricultura de subsistência.


Foto 07 - Sujeitos das comunidades tradicionais socando canjica na cinza. Fonte: Tomasi, 2018.
O evento no ambiente da Casla de acordo com Martins (2018) contou ainda com diversas apresentações de poesias do Grupo Rios Florestas e Violas do Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento/UFPR. 

Assim como, a fala da sua presidente Drª. Gladys de Souza, que realizou um discurso sobre a Logomarca da UNITINERANTE. A vinculação a um trem sobre trilhos carrega o lema “Que nos Callen Los Trenes” para conceber a luta dos povos da América Latina como um convite a resistir.

O último ambiente do evento, no período de 24 a 26 de agosto de 2018, deu-se na Comunidade Caiçara de Guaraguaçu, em Pontal do Paraná. Na abertura do evento neste, teve-se a participação de representantes de instituições públicas, o Prefeito e o Presidente do Paraná Turismo, e, docentes, Prof. Dr. Antônio Haliski/IFPR-Litoral.  Ainda, de acordo com Martins (2018) durante a cerimônia ressalta-se a importância da reativação da associação local, já que por um período de dez anos esteve desativada.

Pelo Prof. Dr. Antônio, coordenador das atividades de pesquisa nesta comunidade, teve-se a apresentação do selo comunitário, por uma simbologia de autoindentificação caiçara. Esta vai de encontro a valorização de produtos locais como estratégia de fortalecimento e desenvolvimento comunitário. Portanto, a arte do selo, contempla importantes aspectos da cultura caiçara como: as plantas medicinais, antúrios e as cattleyas. Também a apresentação artística Fandango com o instrumento rabeca pelo Mestre Aoreleo Domingues.
Oficinas participativas foram ofertadas, como a de bambu artesanal - por Wilson Rubens/Instituto de Permacultura Ecovia São Miguel -, e a de fibras de bananeira (Foto 08). Ambas potencializaram o uso de materiais locais, e, a diversidade de adereços e peças que podem ser feitas com uma única matéria prima.



Fotos 08 e 09 – Oficina de bambu e Visita Guiada ao Sambaqui Guaraguaçu. Fonte: Tomasi, 2018.

Visitou-se segundo Martins (2018) a aldeia Guarani e ao sambaqui Guaraguçu (Foto 09), vizinhos a esta comunidade, uma visita guiada. Além da contemplação no sopé do sambaqui[10], pode-se observar o remanescente de um forno de cal, utilizado na década de 1960 para a extração de material dos sambaquis e fabricação de cal para a pavimentação de rodovias. Outra visita guiada deu-se pela caiçara Srª Tereza Sales Bitencourt, pela sua propriedade, as margens do rio Guaraguaçu. Sua fala expôs o resgate de memórias relacionadas as práticas do pai com as espécies de plantas nativas e seus benefícios medicinais. O encerramento do evento contemplou o café caiçara na casa da Srª Conceição Ramos Constante com o típico bolinho de banana.

Portanto, cabe ainda, o apontamento de Stadler (2018) que o mais importante destes dias de evento acadêmico-comunitário nas três comunidades tradicionais – Faxinal, Quilombo e Caiçara –, as vivências das práticas cotidianas e festivas em torno da religião, alimentação, economia, cultura em geral possibilitou a percepção de outros significados e abordagens para temáticas que perpassam, entrecruzam tais grupos étnicos paranaenses. E mais do que isso, conhecer os espaços pelos sujeitos sociais que de fato constroem suas espacialidades. 

O evento permitiu valorizar a prática de campo e a metodologia da observação-participante, da pesquisa-ação, tão enriquecedoras das pesquisas. De fato, a Universidade esteve no campo, os sujeitos pesquisadores e estudantes dialogaram com os sujeitos pesquisados e esta aproximação e nivelamento deixa o caminho aberto para outras ocasiões de trocas e saberes tradicionais e acadêmicos para problemáticas sociais que forem surgindo.

Toda a equipe do Grupo de Pesquisa Interconexões-UEPG agradece imensamente a recepção e participação dos sujeitos das comunidades paranaenses de Sete Saltos de Baixo (Ponta Grossa), Palmital dos Pretos (Campo Largo) e Guaraguaçu (Pontal do Paraná).







Por Tanize Tomasi Alves – Pós-Doutoranda-PPG/UEPG

Participação Fábio Martins, Cleusi Bobato Stadler e Renato Pereira





[.1] [1] Projeto Universidade Itinerante dos Direitos Humanos, da Natureza, pela Paz e Bem Viver da Casa Latino-Americana (Casla), uma proposta de atividades acadêmico-comunitária em rede, envolvendo universidades, organizações, movimentos sociais e instituições públicas. Para mais informações ver www.calsa.com.br.
[2] A rede internacional CASLA-CEPIAL (Semeando Novos Rumos – Sembrando Nuevos Senderos) surge a partir do III CEPIAL, em julho de 2012, na cidade de Curitiba, Paraná, Brasil, aproximando organizações sociais, instituições acadêmicas e outras instâncias do poder público, no âmbito de América Latina e Caribe – mas aberta também a outras regiões e continentes – e busca fortalecer o diálogo e ações conjuntas que visem o apoio ao desenvolvimento sustentável e à ampliação da participação democrática e da preservação dos direitos coletivos de sociedades e povos que vivem em situações de vulnerabilidade social (BLOG REDE CASLA-CEPIAL, 2018).
[3] Disciplina optativa ofertada sob coordenação do Prof. Dr. Nicolas Floriani e pelos Pós-Doutorandos Profª. Drª. Tanize Tomasi Alves e Prof. Dr. Antônio Márcio Haliski pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Estadual de Ponta Grossa.
[4]  GOFFMAN, Erving. Os quadros da experiência social: uma perspectiva de análise. Petrópolis: Vozes, 2012.
[5] THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez,1985.
[6] ALTIERI, Miguel Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável. 4ed. Porto Alegre: UFRGS, 1998.

[7] Relatório de campo como requisito final para a obtenção da aprovação na disciplina de Saberes Geoecológicos Tradicionais e Diversidade Socioterritorial, do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UEPG, sob a responsabilidade do Prof. Dr. Nicolas Floriani, Profª. Drª. Tanize Tomasi Alves e Prof. Dr. Antônio Márcio Haliski.

[8] O banco de sementes constitui-se em uma das etapas e resultados do Projeto de Pesquisa Territorialidades Tradicionais às “Territorializações da Agroecologia: Saberes, Práticas e Políticas de Natureza em Comunidades Rurais Tradicionais do Paraná (Chamada Universal MCTI/CNPq nº 01/2016).
[9] CLARINDO, Maximillian Ferreira; FLORIANI, Nicolas. As particularidades da reprodução do patrimônio cultural da comunidade quilombola de Palmital dos Pretos, Campo Largo – PR.  Terr@Plural, Ponta Grossa, v.8, n.2, p. 423-443, jul/dez. 2014.
[10] Tais sítios podem se originar de diferentes formas/funções de ocupações, alguns concentram estígios de habitação e outros de cemitérios. A riqueza dos sambaquis no litoral do sul brasileiro apresenta uma ampla riqueza de vestígios histórico-culturais e somente no litoral paranaense possui 322 sítios catalogados cabendo ressaltar que as comunidades ajudam muito em sua preservação.