quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Relatório 10 – Trabalho de Campo nas Comunidades de Sete Saltos de Cima (Ponta Grossa-PR) e Quilombo Palmital dos Pretos (Campo Largo-PR)

Nos dias 11, 12, 13 e 14 de outubro de 2018, dois integrantes do Grupo de Pesquisa Interconexões-UEPG, Prof.ª Dr.ª (Pós-Doutoranda PPGG) Tanize Tomasi e Msc. (Doutorando PPGG) Renato Pereira estiveram em imersão a campo para realizar a visita as unidades produtivas dos agricultores integrantes da Rede SAPE, que pertencem as comunidades rurais vizinhas de Sete Saltos de Cima e Quilombo Palmital dos Pretos, respectivamente nos municípios paranaenses de Ponta Grossa e Campo Largo. 
O trabalho de campo teve como principal finalidade realizar o cadastramento das mudas de árvores nativas para serem solicitadas ao Instituto Ambiental do Paraná para o melhoramento e implementação dos agroecossistemas dos agricultores que integram a Rede SAPE. Ao visitar os agroecossistemas efetuou-se a construção de croquis das áreas das unidades produtivas, para posterior modelização, identificação produtiva e vocativa de cada subunidade. Estes croquis integrarão o plano de manejo, documento necessário para o controle interno da Organização de Controle Social para avaliação da conformidade orgânica.
Alguns pontos importantes e trilhas foram marcados com a orientação do líder quilombola Arildo Portela de Moraes,  visando o levantamento das informações para a confecção dos mapas participativos de recursos sociais e ambientais. Para confirmar a importância dos pontos conversou-se com os moradores mais antigos e em uma entrevista semiestruturada pode-se acompanhar o entrelaçamento do passado e presente na fala de Sr. Domingos e Dona Leonilda.
Observou-se e registrou-se o início das obras das 14 casas que contemplaram famílias quilombolas pelo programa da COHAPAR – Companhia de Habitação do Paraná. E o anúncio pelo líder quilombola e distribuição de donativos, roupas, na sede da cozinha comunitária, que foram recebidos de escolas de Campo Largo-PR.
Início das obras da COHAPAR – Sr. Domingos e Dona Leonilda/Comunidade Quilombola Palmital dos Pretos Fonte: Tomasi, 2018.
No Sítio São Francisco de Assis, propriedade de Antônio Ostrufk, em Sete Salto de Cima, pernoitou-se durante o período de imersão e compartilhou-se de conversas durantes as refeições, no início ou finais dos dias. Tivemos o privilégio de acompanhar a rotina cotidiana em uma unidade produtiva agroecológica. Verificar o local de implantação da Estufa de hortaliças e árvores nativas. Identificar as possibilidades de novas famílias agricultoras para a rede. Saborear a agrobiodiversidade da produção orgânica. Apresentar o logotipo e logomarca da Organização de Controle Social que estamos ajudando a estruturar. A mesma foi apresentada para o líder quilombola e para o integrante João Carlos, que vem sendo um dos moradores atuantes do movimento de consolidação da rede.
O Grupo de Pesquisa Interconexões-UEPG agradece o suporte e o esforço dos moradores das Comunidades para a realização das atividades de pesquisa. Gratidão!

Relatório 09 – 10º Encontro Celebração da vida da Agricultura Familiar

Soleando a colheita aos 28 dias de julho de 2018 em terras agroecológicas da receptível comunidade rural de Sete Saltos de Cima em Ponta Grossa-PR, o Grupo de Pesquisas Interconexões-UEPG esteve em campo a convite dos anfitriões Asaeco (Associação Solidária da Agricultura Ecológica de Ponta Grossa e Região), Ceta (Centro de Estudos e Treinamento em Agroecologia) e Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ponta Grossa, para participar e colaborar na coordenação do 10º Encontro “Celebração da vida da Agricultura Familiar”. 
Agricultura Familiar” Ao centro Antônio Ostrufk, fundador do Ceta e Asaeco, em atividade prático-agroecológica em sua propriedade Fonte: Tomasi, 2018.


Ao observar os passos de quem já caminhou para lá e para cá e fez da sua última paragem muitos caminhos para outros chegarem, em poucos minutos de conversa na roça a emoção de ver vidas ganhando chão fértil. A produtividade alicerçada à diversidade colorida, são tantas tonalidades entrelaçadas, seja aquelas comumente vistas e servidas as nossas mesas, como àquelas doutrora pisoteadas ou exterminadas e que agora se fazem alimento (Pancs). Até onde a vista alcança olhar, fomos olhados pelo novo, a possibilidade de plantar o respeito aos ciclos naturais. A potencialidade de se alimentar à produção dos elementos disponíveis na propriedade familiar e o entrelaçamento à vizinhança.

Foto 02 – 10° Encontro “Celebração da vida da Agricultura Familiar” Convidados manipulando a palhada em terra de pousio/recuperação da fertilidade Fonte: Tomasi, 2018.



A diversidade está nas formas que os produtores vivem seus lugares, Antônio Ostrufk, sua esposa Cida (Presidente da Asaeco), seu filho Luciano, nora Ana Paula e neta Ana Júlia, vivenciam o cotidiano de ser/estar agroecológico. Transgredindo o modo convencional de produzir para algo que justifica e enaltece a riqueza ambiental local.



As mãos de um produtor e incentivador dos estudos agroecológicos nos assegura a possibilidade de desenvolver técnicas e saberes pertencentes àqueles que fazem da terra sua morada, campo sagrado para trilhar histórias de vida. Antônio mais do que ninguém celebra a vida do trabalhador do campo e nos ensina a sermos atentos ao céus e terras entre os quais fazemos-nos vivos. O diálogo apurado de quem faz sua própria observação-participante, identificando as respostas que a própria natureza fornece a determinados cultivos. 



Solo com microorganismos ativos Fonte: Tomasi, 2018.

O Projeto Alimentando à Vida promove a inclusão de produtores que já desenvolvem práticas agrícolas familiares que sustenta a agrobiodiversidade local, e, mais do que isso possibilita a comercialização destes produtos. O alcance regional dá voz aos sujeitos invisibilizados que têm condições de participar do mercado local-regional com alimentos sustentáveis e saudáveis. A resistência por uma agricultura familiar sustentável pela agroecologia foi a grande temática deste 10º Encontro. 



Mucuna branca Fonte: Tomasi, 201



O Grupo de Pesquisa interconexões – UEPG agradece a parceria, e ressalta a importância dos esforços de todos os produtores, participantes e adeptos da agroecologia em unidades familiares.

Relatório de Campo 08 – 16ª Feira regional de sementes crioulas e da agrobiodiversidade e 2ª Festa dos guardiões das sementes – São João do Triunfo-PR

O Grupo Interconexões-UEPG e agricultores familiares, sujeitos do recorte espacial dos projetos de pesquisa e extensão, participaram nos dias 31 de agosto e 1 de setembro de 2018 da 16ª Feira regional de sementes crioulas e da agrobiodiversidade/2ª Festa dos guardiões das sementes, no Parque Municipal de Eventos Francisco Neves Filho em São João do Triunfo-PR. Um estande foi ocupado para a comercialização de produtos das comunidades rurais Sete Saltos de Cima,  Sete Saltos de Baixo (Faxinal) e Palmital dos Pretos (Quilombo).

Estande dos produtos dos agricultores
familiares de Itaiacoca (Ponta Grossa) e Três Córregos (Campo Largo) Fonte: Tomasi, 2018.
 


A participação dos agricultores projetou o panorama da produção existente em cada agroecossistema, outrora levantado nas pesquisas de campo. Uma agrobiodiversidade ressaltada por produtos in natura, processados e artesanais. Na feira destacou-se: mel, limão, ervas medicinais, erva-mate, conservas, pães, bolachas, sucos, geleias, doce de leite, melado, rapadura, artesanatos – tapetes de retalhos, crochê, bolsas de pano, cestarias de taquara,  sabonetes e monjolo de madeira.


Agrobiodiversidade das unidades produtivas em Itaiacoca (Ponta Grossa) e Três Córregos (Campo Largo) Fonte: Tomasi, 2018.
Os agricultores puderam ter contato com as práticas de comercialização e divulgação da sua produção, a troca de experiências e efetivação de novos contatos com outros agricultores. Também puderam realizar a troca e compra de sementes crioulas, e, a participação em oficinas específicas.
O Grupo de Pesquisa Interconexões-UEPG agradece a participação dos agricultores neste evento.

Por Tanize Tomasi – Pós-doutoranda do PPGG UEPG

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

RELATÓRIO 7 - II° ENCONTRO ACADÊMICO-COMUNITÁRIO DA UNITINERANTE: "SABERES GEOCOLÓGICOS TRADICIONAIS E DIVERSIDADE SOCIOTERRITORIAL"


O II Encontro Acadêmico-comunitário da Unitinerante[.1] [1] e XI Encontro Temático da Rede CASLA-CEPIAL[2] que ocorreu do dia 17 a 26 de agosto de 2018, teve como eixo-disciplinar[3] proposto pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia-UEPG os "Saberes Geoecológicos Tradicionais e Diversidade Socioterritorial". Em nove dias discentes (Graduação e Pós-Graduação), docentes e comunitários percorreram três municípios paranaenses, dois deles localizados no centro-leste na região dos Campos Gerais, sendo Ponta Grossa e Campo Largo, e, no litoral, Pontal do Paraná (Figura 01). Estes contemplaram o itinerário do evento por conter em suas áreas rurais comunidades tradicionais, respectivamente, Faxinal (Sete Saltos de Baixo), Quilombo (Palmital dos Pretos) e Caiçara (Guaraguaçu).


Figura 1 – Recorte espacial do itinerário do evento nas comunidades tradicionais paranaenses. Org.: Pereira, 2018.
Tais grupos étnicos são recorte espacial do projeto de pesquisa “Territorialidades Tradicionais às Territorializações da Agroecologia: Saberes, Práticas e Políticas de Natureza em Comunidades Rurais Tradicionais do Paraná (Chamada Universal MCTI/CNPq nº 01/2016) e do projeto de extensão “Selo Socioambiental Produtos da Agrofloresta Faxinalense: Capacitação Sociotécnica e Empoderamento Jurídico para a Inclusão Social e Geração de Renda de Populações Tradicionais do Paraná” (SETI-PR/2018). 

Tanto o projeto de pesquisa, quanto o de extensão são coordenados pelo Prof. Dr. Nicolas Floriani do Programa de Pós-Graduação em Geografia-UEPG, efetivado pelo Grupo de pesquisa – “Interconexões/UEPG”, tendo ainda como integrantes: Tanize Tomasi Alves (Pós-doutoranda), Antônio Márcio Haliski (Pós-doutorando), Cleusi Teresinha Bobato Stadler (Doutoranda), Renato Pereira (Doutorando), Vanderlei Marinheski (Doutorando) e Brenda Olinek (Graduanda em Biologia). E dentro do projeto de extensão a técnica Ronir Fátima Rodrigues. 
De forma alternativa, e, até desafiadora aos padrões acadêmicos, pela segunda vez ofertou-se a disciplina-evento nas comunidades, com a prerrogativa de nesta edição ter sido acrescido as três diferentes realidades. Uma parceria firmada pela UEPG, através do docente do departamento de Geociências, Prof. Dr. Nicolas, com a Casla-Rede-Cepial. A inserção à campo possibilitou a integração dos discentes e docentes ao ambiente cotidiano dos sujeitos das pesquisas e atividades extensionistas. Além de facilitar a participação dos sujeitos locais, e, mais do que isso ter o protagonismo dos mesmos durante o evento em que foram temática. Portanto, a programação do evento foi estruturada de forma que contemplasse as discussões acadêmico-teóricas e problemáticas/demandas comunitárias. Assim como a inclusão de atividades e práticas culturais contemplativas e valorativas dos saberes tradicionais.
Com a metodologia da observação-participante (GOFFMAN, 2012)[4], em que os pesquisadores adequam-se à captura das informações conforme o seu olhar, interagindo através do contato face a face no momento da realização das atividades, tem-se o aprofundamento e a aproximação dos sujeitos pesquisadores e estudantes com os sujeitos de suas pesquisas e estudos. Uma interação potencial ao diálogo mais eficaz e direcionado às problemáticas locais, uma vez que os sujeitos que de fato vivenciam as realidades podem expor outras perspectivas e argumentos sobre as mesmas.
Também adota-se conforme Pereira (2018) o procedimento metodológico da pesquisa-ação. Esta de acordo com Thiollent (1985, p. 14)[5] é:
[...] Um tipo de pesquisa social que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação da realidade a ser investigada estão envolvidos de modo cooperativo e participativo.
Coloca-se esta metodologia, pois as práticas e atividades dos projetos de pesquisa e extensão que perpassaram o evento, visam mais do que o levantamento de informações, mas a reestruturação e melhoramento dos sistemas produtivos; valorização da produção; organização e ampliação da comercialização dos excedentes. Durante o evento algumas práticas foram direcionadas para estes fins.
Para Pereira (2018) tanto a justificativa do projeto, quanto à abordagem agroecológica a partir dos sujeitos das comunidades tradicionais no evento, encontra ressonância em Altieri (1998)[6], quando ressalta que o enfoque da agroecologia deve ser ao agricultor que possui menor acesso aos insumos tecnológicos e poucas relações com o mercado, como uma estratégia para o desenvolvimento rural sustentável.
Este relatório constituiu-se por trechos dos relatórios de campo dos alunos do Programa de Pós-Graduação em Geografia-UEPG[7], Fábio Martins, Cleusi Bobato Stadler e Renato Pereira, que experenciaram a prática de campo, nestes ambientes distintos.
A seguir Stadler (2018) nos expõem que a abertura do evento no Faxinal de Sete Saltos de Baixo, no dia 18 de agosto de 2018, com a ressalva de um percentual baixo de participantes acadêmico-comunitário inferiu na alternância da metodologia das “oficinas participativas” – moradores das comunidades, discentes e docentes –, com a inclusão da fala expositiva-ilustrativa.
Na exposição teórico-prática teve-se no Faxinal Sete Saltos de Baixo a abordagem de três temáticas: “Etnopedologia e Manejo da Fertilidade dos Solos (Vanderlei Marinheski – Doutorado/UEPG)”, “Agrobiodiversidade – “Sementes Crioulas” e Práticas Culturais dos Faxinalenses e Quilombolas (Cleusi Bobato Stadler-Doutorado/UEPG)” – destaca-se a exposição do banco de sementes[8] -, e Agrobiodiversidade e Sistema Agroflorestal (Margit Hauer-IAP)” (Fotos 01 e 02). Também fez-se uma exposição de fotos dos sujeitos da pesquisa, registros estes realizados por uma das integrantes do Grupo Interconexões-UEPG durante os trabalhos de imersão à campo (TOMASI, 2018). E uma apresentação sobre o projeto do selo faxinalense, com destaque para alguns resultados e homenagem póstuma a um líder faxinalense de uma comunidade vizinha (GONÇALVES, 2018).




Fotos 01 e 02 – Oficinas Teórico-práticas na Comunidade Faxinalense Sete Saltos de Baixo-Ponta Grossa/PR. Fonte: Tomasi, 2018.


Todavia, segundo Stadler (2018) destaca-se durante as Oficinas as práticas culturais. Em uma delas a faxinalense Srª Jesuvina Chagas Ferreira, de 69 anos, moradora do local há mais de 25 anos, demonstra a tradição de socar a erva-mate no pilão, uma atividade que realiza todos os anos em sua propriedade (Foto 03). Ela corta a erva-mate, seca no forno de barro e soca no pilão, de modo artesanal e tradicional. E a prática da “Paçoca de carne” no pilão, apresentada pela família Chagas, onde se coloca a carne de porco salgada junto a farinha de milho e vai socando até formar a paçoca (Foto 04).


Fotos 03 e 04 – Práticas tradicionais executadas por faxinalenses na Comunidade Sete Saltos de Baixo – Ponta Grossa/PR. Fonte: Tomasi, 2018.

Stadler (2018) evidencia a exposição de produtos faxinalenses para comercialização com os participantes do evento. Destaca-se entre a produção: a erva-mate, o mel e artesanatos de taquara e fibras. Apresentações artísticas musicais com sanfona, violão e sino foram realizadas pelos faxinalenses e quilombolas.

De acordo com Pereira (2018) no segundo dia de evento, 19 de agosto de 2018, vivenciou-se a atividade de visita à propriedade familiar agrícola dos Marques – localizada na comunidade rural de Sete Saltos de Cima (Ponta Grossa-PR) –, o almoço comunitário e a etnocaminhada na Comunidade Quilombola Palmital dos Pretos.

Na primeira atividade, observa-se os resultados dos primeiros anos de transposição de uma agricultura convencional para os moldes teórico-práticos da agroecologia. Teve-se in loco a fala e demonstração de alguns termos e técnicas de manejo do sistema produtivo agroecológico pelo estudante de Tecnologia em Agroecologia do IFPR, Leandro Miguel Schepiura. Nesta ocasião além da caminhada pelo agroecossistema, identifica-se a agrobiodiversidade existente, diante do histórico da mesma e o pouco tempo de inserção às novas práticas agrícolas (Fotos 05). Também pode-se acompanhar a poda de bananeira, observar a troca de sementes crioulas entre os sujeitos comunitários e a coleta de exemplares por integrante do Grupo Interconexões-UEPG para o banco de sementes do projeto.

Fotos 05 – Estudante do curso de Tecnologia em Agroecologia e Propriedade com início de produção agroecológica. Fonte: Tomasi, 2018.
Já na Comunidade Quilombola Palmital dos Pretos, a partir do meio dia, conforme Pereira (2018) realizou-se o almoço comunitário, ofertado pelos quilombolas com produtos locais, como o arroz, o feijão e o frango caipira. Após o término deste, efetivou-se a etnocaminhada, caminhada guiada pelo quilombola Sr. Alceu Carneiro, cujas práticas e atividades diárias demandam muito conhecimento da mata, demonstrada nesta ocasião.

Escolheu-se a mata próxima a estrada principal, onde todo o grupo pode adentrar e ter contato com os saberes vernaculares deste sujeito quilombola. Ele identificou espécies vegetais, seu uso doméstico e medicinal, como por exemplo o Cipó-mil-homens. Nesta ocasião observou-se ainda os remanescentes dos antigos caminhos presentes na mata.

Na comunidade quilombola a programação possibilitou a visita à propriedade do líder, Arildo Moraes de Portela, cuja implantação iniciou-se neste ano, alguns meses antes das primeiras atividades do Grupo de Pesquisa, desta forma acompanha-se a construção das benfeitorias e do sistema produtivo. Este mescla técnicas vinculadas aos saberes tradicionais e agroecológicos, visto que, adquiriu conhecimentos teóricos cursando um período do curso de Tecnologia em Agroecologia pelo IFPR. Na Comunidade adquiriu-se sementes crioulas e de adubo verde.

Do dia 21 a 23 de agosto de 2018, o evento seguiu com programação em Curitiba, na Casla, destacando então, a proposta da Unitinerante, e assim fez-se a presença dos sujeitos destas comunidades neste ambiente, além de lideranças de outros grupos étnicos. E também a participação de Pró-reitores de Universidades públicas, Secretário de Ciência e Tecnologia e Fundação Araucária do Paraná, Ministério Público do Paraná, Defensoria Pública Federal, Núcleo especializado da Infância e Juventude, Instituto Ambiental do Paraná, organizações e movimentos sociais.

Durante estes três dias segundo Stadler (2018) debateu-se os seguintes temas: Jornada Direitos Humanos e Migrações; Jornada Direitos Humanos; Violência e Situação Prisional: desafios para o Brasil e Argentina; Organizações Comunitárias: experiências de diálogo com poder público e academia; Saberes Geoecológicos Locais e Diversidade Socioterritorial: experiências acadêmicas nacionais. E ainda, nesta ocasião segundo Martins (2018) firmou-se parcerias em apoio ao projeto da Unitinerante, com diversas instituições e autoridades representativas.

Na Casla também pode-se realizar a “1ª Feira de Sabores e Sementes”, as sementes e produtos coletados nas comunidades, deram-se em períodos anteriores, durante as atividades de pesquisa do Grupo Interconexões-UEPG. Efetivou-se a comercialização da produção das três comunidades tradicionais ao qual o evento foi ambientado e de agricultores familiares da comunidade Sete Saltos de Cima, vizinha ao quilombo e faxinal que também são foco do projeto de pesquisa e extensão (Foto 06). 

Além deles comercializarem seus produtos diretamente ao consumidor, nesta ocasião os sujeitos comunitários oportunizaram a exposição de saberes-fazeres (Foto 07) através das oficinais de práticas culturais com a confecção da canjica com cinza no pilão (PEREIRA, 2018) e a confecção de cuia em porongo e a bomba de bambu, posteriormente, com o material pronto os participantes constituíram uma roda de chimarrão (MARTINS, 2018). 

Foto 06 - Banner com os representantes das comunidades na 1ª Feira de Sabores e Sementes. Fonte: Tomasi, 2018.
Dentro da metodologia das oficinas culturais Pereira (2018) enfatiza a importância deste saber-fazer tradicional fundamentada no argumento de Clarindo e Floriani (2014)[9], em que as comunidades constituem-se de territorialidades a partir da sua relação de ocupação coletiva e de subsistência com a terra, dos laços de parentesco e de compadresco, pela sua ancestralidade, pelas suas  tradições simbólico-culturais e pelos rituais e saberes vernaculares, como a reza cantada, as moradias de barro e cobertura de capim (casas de sapê), o uso do pilão, o conhecimento da flora e da fauna e a agricultura de subsistência.


Foto 07 - Sujeitos das comunidades tradicionais socando canjica na cinza. Fonte: Tomasi, 2018.
O evento no ambiente da Casla de acordo com Martins (2018) contou ainda com diversas apresentações de poesias do Grupo Rios Florestas e Violas do Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento/UFPR. 

Assim como, a fala da sua presidente Drª. Gladys de Souza, que realizou um discurso sobre a Logomarca da UNITINERANTE. A vinculação a um trem sobre trilhos carrega o lema “Que nos Callen Los Trenes” para conceber a luta dos povos da América Latina como um convite a resistir.

O último ambiente do evento, no período de 24 a 26 de agosto de 2018, deu-se na Comunidade Caiçara de Guaraguaçu, em Pontal do Paraná. Na abertura do evento neste, teve-se a participação de representantes de instituições públicas, o Prefeito e o Presidente do Paraná Turismo, e, docentes, Prof. Dr. Antônio Haliski/IFPR-Litoral.  Ainda, de acordo com Martins (2018) durante a cerimônia ressalta-se a importância da reativação da associação local, já que por um período de dez anos esteve desativada.

Pelo Prof. Dr. Antônio, coordenador das atividades de pesquisa nesta comunidade, teve-se a apresentação do selo comunitário, por uma simbologia de autoindentificação caiçara. Esta vai de encontro a valorização de produtos locais como estratégia de fortalecimento e desenvolvimento comunitário. Portanto, a arte do selo, contempla importantes aspectos da cultura caiçara como: as plantas medicinais, antúrios e as cattleyas. Também a apresentação artística Fandango com o instrumento rabeca pelo Mestre Aoreleo Domingues.
Oficinas participativas foram ofertadas, como a de bambu artesanal - por Wilson Rubens/Instituto de Permacultura Ecovia São Miguel -, e a de fibras de bananeira (Foto 08). Ambas potencializaram o uso de materiais locais, e, a diversidade de adereços e peças que podem ser feitas com uma única matéria prima.



Fotos 08 e 09 – Oficina de bambu e Visita Guiada ao Sambaqui Guaraguaçu. Fonte: Tomasi, 2018.

Visitou-se segundo Martins (2018) a aldeia Guarani e ao sambaqui Guaraguçu (Foto 09), vizinhos a esta comunidade, uma visita guiada. Além da contemplação no sopé do sambaqui[10], pode-se observar o remanescente de um forno de cal, utilizado na década de 1960 para a extração de material dos sambaquis e fabricação de cal para a pavimentação de rodovias. Outra visita guiada deu-se pela caiçara Srª Tereza Sales Bitencourt, pela sua propriedade, as margens do rio Guaraguaçu. Sua fala expôs o resgate de memórias relacionadas as práticas do pai com as espécies de plantas nativas e seus benefícios medicinais. O encerramento do evento contemplou o café caiçara na casa da Srª Conceição Ramos Constante com o típico bolinho de banana.

Portanto, cabe ainda, o apontamento de Stadler (2018) que o mais importante destes dias de evento acadêmico-comunitário nas três comunidades tradicionais – Faxinal, Quilombo e Caiçara –, as vivências das práticas cotidianas e festivas em torno da religião, alimentação, economia, cultura em geral possibilitou a percepção de outros significados e abordagens para temáticas que perpassam, entrecruzam tais grupos étnicos paranaenses. E mais do que isso, conhecer os espaços pelos sujeitos sociais que de fato constroem suas espacialidades. 

O evento permitiu valorizar a prática de campo e a metodologia da observação-participante, da pesquisa-ação, tão enriquecedoras das pesquisas. De fato, a Universidade esteve no campo, os sujeitos pesquisadores e estudantes dialogaram com os sujeitos pesquisados e esta aproximação e nivelamento deixa o caminho aberto para outras ocasiões de trocas e saberes tradicionais e acadêmicos para problemáticas sociais que forem surgindo.

Toda a equipe do Grupo de Pesquisa Interconexões-UEPG agradece imensamente a recepção e participação dos sujeitos das comunidades paranaenses de Sete Saltos de Baixo (Ponta Grossa), Palmital dos Pretos (Campo Largo) e Guaraguaçu (Pontal do Paraná).







Por Tanize Tomasi Alves – Pós-Doutoranda-PPG/UEPG

Participação Fábio Martins, Cleusi Bobato Stadler e Renato Pereira





[.1] [1] Projeto Universidade Itinerante dos Direitos Humanos, da Natureza, pela Paz e Bem Viver da Casa Latino-Americana (Casla), uma proposta de atividades acadêmico-comunitária em rede, envolvendo universidades, organizações, movimentos sociais e instituições públicas. Para mais informações ver www.calsa.com.br.
[2] A rede internacional CASLA-CEPIAL (Semeando Novos Rumos – Sembrando Nuevos Senderos) surge a partir do III CEPIAL, em julho de 2012, na cidade de Curitiba, Paraná, Brasil, aproximando organizações sociais, instituições acadêmicas e outras instâncias do poder público, no âmbito de América Latina e Caribe – mas aberta também a outras regiões e continentes – e busca fortalecer o diálogo e ações conjuntas que visem o apoio ao desenvolvimento sustentável e à ampliação da participação democrática e da preservação dos direitos coletivos de sociedades e povos que vivem em situações de vulnerabilidade social (BLOG REDE CASLA-CEPIAL, 2018).
[3] Disciplina optativa ofertada sob coordenação do Prof. Dr. Nicolas Floriani e pelos Pós-Doutorandos Profª. Drª. Tanize Tomasi Alves e Prof. Dr. Antônio Márcio Haliski pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Estadual de Ponta Grossa.
[4]  GOFFMAN, Erving. Os quadros da experiência social: uma perspectiva de análise. Petrópolis: Vozes, 2012.
[5] THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez,1985.
[6] ALTIERI, Miguel Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável. 4ed. Porto Alegre: UFRGS, 1998.

[7] Relatório de campo como requisito final para a obtenção da aprovação na disciplina de Saberes Geoecológicos Tradicionais e Diversidade Socioterritorial, do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UEPG, sob a responsabilidade do Prof. Dr. Nicolas Floriani, Profª. Drª. Tanize Tomasi Alves e Prof. Dr. Antônio Márcio Haliski.

[8] O banco de sementes constitui-se em uma das etapas e resultados do Projeto de Pesquisa Territorialidades Tradicionais às “Territorializações da Agroecologia: Saberes, Práticas e Políticas de Natureza em Comunidades Rurais Tradicionais do Paraná (Chamada Universal MCTI/CNPq nº 01/2016).
[9] CLARINDO, Maximillian Ferreira; FLORIANI, Nicolas. As particularidades da reprodução do patrimônio cultural da comunidade quilombola de Palmital dos Pretos, Campo Largo – PR.  Terr@Plural, Ponta Grossa, v.8, n.2, p. 423-443, jul/dez. 2014.
[10] Tais sítios podem se originar de diferentes formas/funções de ocupações, alguns concentram estígios de habitação e outros de cemitérios. A riqueza dos sambaquis no litoral do sul brasileiro apresenta uma ampla riqueza de vestígios histórico-culturais e somente no litoral paranaense possui 322 sítios catalogados cabendo ressaltar que as comunidades ajudam muito em sua preservação.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

RELATÓRIO DE CAMPO 06 - COMUNIDADE QUILOMBOLA PALMITAL DOS PRETOS E FAXINAL SETE SALTOS DE BAIXO - PR

Experienciamos de 15 a 22 de julho de 2018 um período de imersão à campo junto a dois grupos étnicos da região dos Campos Gerais Paranaenses, Comunidade Quilombola Palmital dos Pretos e Faxinal Sete Saltos de Baixo, com fixação da base de pesquisa no barracão do salão comunitário desta última. Nossa equipe contou com a participação de Renato Pereira (Doutorando do PPGG/UEPG), Brenda Olinek (Graduanda em Biologia/UEPG), Cleusi Teresinha Bobato Stadler (Doutoranda do PPGG/UEPG) e Tanize Tomasi Alves (Pós-doutoranda do PPGG/UEPG) (Figura 01).


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Figura 01 - Equipe do Grupo de Pesquisas Interconexões - UEPG e Faxinalenses

Além do desenvolvimento de investigações que contemplaram a Meta 01 do projeto de extensão "Selo Socioambiental “Produtos Da Agrofloresta Faxinalense”: Capacitação Sociotécnica E Empoderamento Jurídico Para A Inclusão Social E Geração De Renda Em Comunidades Rurais Faxinalenses Do Paraná” e do projeto de pesquisa "DAS TERRITORIALIDADES TRADICIONAIS ÀS TERRITORIALIZAÇÕES DA AGROECOLOGIA", adotamos uma abordagem que nos aproximou das problemáticas individuais de investigação. 

Dividimos nossas práticas entre o Palmital dos Pretos e Sete Saltos de Baixo, viabilizando nossa participação conforme a demanda e disponibilidade dos sujeitos sociais. Por isso, apesar de ter um cronograma pré-estabelecido, seguimos a dinâmica cotidiana das comunidades. Optamos por sermos observadores-participantes, assim estivemos presentes na execução de distintas práticas e atividades cotidianas e ocasionais como: quebra de milho, coleta de capim estrepe para casa de sapé, manutenção dos vedos, limpeza da tubulação de água, colheita de hortaliças, entre outros (Figura 02 e 03).

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Figura 02 - Observação-participante na atividade de quebra de milho no Faxinal - 
parte da equipe do Grupo de Pesquisa Interconexões/UEPG e Faxinalenses

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Figura 03 - Observação-participante na atividade de coleta que capim estrepe - 
parte da equipe do Grupo de Pesquisa Interconexões/UEPG e Quilombolas


Também foi um momento de divulgarmos nossos projetos e o evento II° ENCONTRO ACADÊMICO-COMUNITÁRIO DA UNITINERANTE: "SABERES GEOCOLÓGICOS TRADICIONAIS E DIVERSIDADE SOCIOTERRITORIAL", que ocorrerá do dia 17 a 26 de agosto de 2018 em Ponta Grossa-Curitiba-Pontal do Paraná, panfletando em ambas as comunidades (Figura 04). Dúvidas puderam ser sanadas nesta ocasião. 

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Figura 04 - Panfletagem com os moradores das comunidades

Foram dias de muito aprendizado e interações, os moradores de ambas as comunidades nos oportunizaram momentos únicos e de intensa imersão no cotidiano de suas famílias. Agradecemos a Proex-UEPG pelo suporte para desenvolvermos nossas pesquisas e as comunidades pela possibilidade de estarmos dialogando continuamente com eles. 

Tanize Tomasi Alves

quinta-feira, 5 de julho de 2018

RELATÓRIO DE CAMPO 05 - COMUNIDADE QUILOMBOLA PALMITAL DOS PRETOS


RELATÓRIO DE CAMPO 05 - COMUNIDADE QUILOMBOLA PALMITAL DOS PRETOS


Em um trabalho de parceria estivemos nos dias 01, 02 e 03 de julho de 2018 em imersão na Comunidade Quilombola Palmital dos Pretos, em Campo Largo-PR. Trabalhamos em duas frentes de investigação, a problemática da tese do doutorando Renato Pereira, sob co-orientação da Dra. Tanize Tomasi Alves (PPGEO-UEPG), e o do projeto de Pós-doutoramento da mesma (FOTO 01). Enquanto a tese busca discutir a certificação dos produtos da agrofloresta (agroecossistema tradicional) para as comunidades quilombolas e faxinalenses, o, projeto de pós-doutorado fundamenta-se em uma abordagem da (bio)regionalização diante das práticas, culturas, saberes e relações sociais.

Foto 01 - Equipe presente em campo do Grupo de Pesquisa Interconexões-UEPG realizando Etnocaminhada com o líder quilombola Arildo Portela de Morais.

O momento de imersão possibilitou que desenvolvêssemos distintas atividades, e, ainda acompanhássemos distintas práticas e afazeres cotidianos. Enquanto equipe buscamos expandir nossa compreensão sobre a região em que as comunidades estão inseridas e abranger o levantamento de informações sobre os sujeitos quilombolas e atores circunvizinhos.
Diante disso realizamos as seguintes atividades: Turnê guiada pelo líder quilombola Arildo Portela de Morais pela região, destacando nesta, os atores e lugares-chave; acompanhamento de atividade em parceria com vizinhos em uma área limitante a comunidade quilombola (FOTO 02); Visita às áreas antes ocupadas pelos moradores quilombolas; Visitas a casa de moradores não-quilombolas que estão inseridos na comunidade; Observação-participante em atividades cotidianas e culturais; Almoço na casa de uma família quilombola; (Re)visita a moradores quilombolas; Bate-papo informal com quilombolas e não-quilombolas nos trajetos de deslocamento na comunidade; Jantar com quilombolas e conversa informal na Cozinha Comunitária; Etnocaminhada pela floresta de araucária de um dos moradores (FOTO 01).

Foto 02 - Acompanhamento da equipe do Grupo de pesquisa Interconexões-UEPG durante a visita a propriedade vizinha.

Agradecemos a abertura dos sujeitos quilombolas do Palmital dos Pretos, em especial a liderança que tem nos proporcionado momentos de grande diálogo e inserção no cotidiano da comunidade.

Tanize Tomasi Alves